Quantos espectros contém a personalidade de um homem?
Não sei, sou tão leigo quanto a isso que só me arrisco a dizer que deve ser, ao menos, o mesmo número da quantidade de sinapses possíveis.
Mas dentre eles há dois que me cutucam e incomodam de maneira a formar algumas bolhas aqui dentro: a vaidade e o nojo. Estariam estes interligados em algum ponto?
A vaidade me parece como um anel elástico em volta do homem: se você a pressiona ela te dá um tabefe, um bofetão. É como se fosse um orgulho manipulado para um altruísmo mentiroso e mascarado, no qual o fundo seria, necessariamente, egoísmo e egocentrismo. Ela está vestida de uma contradição entre o ser mesmo e o ser social. Pra mim a vaidade é o creme do narcisismo, aquilo que reveste a nossa pele de um algo projetado, que não somos, mas somos por convenção.- Ora, se o excesso de creme dá nojo, eu estaria agora com nojo de mim mesmo. Nojo dessa minha vaidade que me escapou por tanto tempo.- Essa camada licorosa e gosmenta me lembra um corpo morto em que as células ainda lutam por vida, mas em vão. Ouso mesmo dizer que muitos se enganam quando pensam que a vaidade apenas se mostra através da pele externa. Ela está num corte mais fundo, daqueles que deixam cicatrizes para o resto da vida. É verdade que uma cicatriz de infância pode desencadear o problema. Imagine um rosto de uma criança linda, a mais bonita; depois uma brincadeira negligente, um acidente e aí está a vaidade externa perturbada. Agora imagine uma criança ser-humano, a ‘mais sorriso’; depois um acontecimento emocional grave e daí o desenvolvimento de um tipo problemático de vaidade interna.
Quem diz não ter vaidade é mentiroso; e se a mentira for também excesso de creme isso me dá mais nojo. Digo com toda certeza de causa: um corte no rosto pode doer menos do que uma ferida metafórica, justamente porque esta é interna. O caminho, talvez, para o saboroso é deixá-la afrouxar.
Escrito por Marcio Benito às 19h37
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