AMARELOECONTOS


(Obs: os dois últimos posts são um só)

--------Preces---------

 

Senhor,

cadê o meu santuário,

no qual estaria a imagem

dela?

Perdeu-se nas rezas?

Em liturgias de abismos?

Seu corpo e sangue

é tudo o que penso;

e não em

eucaristia.

Não!

Seu templo é a minha

                                   coroa;

                                       e

     minhas mãos, já estão cravadas, as mãos minhas

                                  e o corpo

                                      só,

                                       e

                                   os pés.

Meu templo pregado

em vontades, desejos e imagens.

Meu tempo presente

de angústia, de angústia.



 Escrito por Marcio Benito às 22h19
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(continuação)

Senhor,

cadê o meu livre-arbítrio,

se não me vejo livre

desta imagem?

Escondeu-se em correntes?

Em culpas de não-atos?

Sua boca e beijo

é tudo o que quero;

e não as

promessas.

Sim!

Seu pecado é a minha

fé;

e

          suas

                               alegrias;

gozo com suas satanices, ah gozo

                                   vem

                                  maçã...

Mas que digo

em fantasias, maravilhas e miragens?

Mas qual sinto:

vã luxúria, espúria...

 

Senhor,

escuta-me:

por quê não atendes as minhas?



 Escrito por Marcio Benito às 22h19
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Manto com foice!

Veio algo aos meus olhos nesta noite e não era um grão de areia, nem uma simples passagem de espíritos. Aquela visão de pássaro negro me conduziu à porta do inferno. O cachorro louco que latia assoviando, o lagarto de pé com uma lança de ouro nas mãos. Uma voz: Hoje... seu dia! O caminho não era de pedra, nem de fogo, mas tão somente esmalte derretido a exalar venenos; e ocre minhas pupilas. Não havia Perséfone nem Hades: tudo mentira tais histórias. Um cego com três bocas, de joelhos, as mãos cruzadas... e macacos abanando o odor que lhe saía dos ossos. No centro, oito livros sagrados queimavam enquanto um escriba inventava metáforas novas. No teto, anéis dourados refletiam imagens de memórias de mamíferos. Quase sempre leite verde e depois abismos. E o cego transfigurando para cada lábio uma frase: “Ninguém nasce”; “A vida é mentira”; “A morte é alívio”. Depois, dois abutres brancos gigantes trouxeram um rei acorrentado, o doce salivando... “Deus Pai todo poderoso, do alto da montanha, um cervo serve o homem, e quatro mil ovelhas carnívoras espreitam o sangue”. Ouviu-se tilintar de metais, a harmonia da sinfonia era líquida. Em música, o cego levantou-se e digeriu os abutres. O rei chorou. À esquerda, vi crianças agitar as próprias cabeças e batê-las em tacos de cristal. À direita, idosos mastigavam carnes podres. Meu sangue, vagarosamente, do vermelho para o azul, a pele para pedra. Quando meus olhos fecharam, percebi...



 Escrito por Marcio Benito às 11h21
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